Lítio, hidrogênio e datacenter: os projetos investigados pela PGR de Portugal que levaram primeiro-ministro a renunciar

O primeiro-ministro de Portugal, António Costa, renunciou ao cargo em novembro de 2023 após a Procuradoria-Geral da República (PGR) portuguesa abrir um inquérito penal que o incluía como arguido. A investigação girava em torno de três projetos de grande impacto econômico e ambiental no território português: lítio, hidrogênio verde e um datacenter de grande escala. A seguir, entenda o que eram esses projetos, por que foram investigados e como o caso desencadeou a maior crise política do país em anos.

O contexto político de Portugal

António Costa governava Portugal desde 2015 à frente de um governo de esquerda apoiado pelo Partido Socialista (PS), que havia obtido maioria absoluta nas eleições legislativas de janeiro de 2023. Sua liderança era vista internacionalmente como estável e o país vivia um período de crescimento econômico e redução do desemprego. A surpresa da investigação e da renúncia repercutiu fortemente na política europeia.

Os três projetos investigados

1. Mineração de lítio

O Brasil e Portugal são apontados como detentores de importantes reservas de lítio na Europa e na América Latina. Em Portugal, o governo de Costa havia aprovado uma legislação que permitia a exploração de minerais estratégicos, incluindo lítio, nos territórios de Boticas e Montalegre, no norte do país. O lítio é matéria-prima essencial para a fabricação de baterias de íon-lítio, utilizadas em veículos elétricos e dispositivos eletrônicos, o que torna o minério um item de alta demanda na transição energética global. A investigação da PGR apurava se houve pressões indevidas ou favorecimentos na concessão de licenças e autorizações para empresas que almejavam explorar essas reservas.

2. Hidrogênio verde

O hidrogênio verde, produzido por eletrólise da água usando energia renovável, é considerado um dos pilares da transição energética europeia. Portugal havia anunciado planos ambiciosos para se tornar um polo de produção e exportação de hidrogênio verde, com projetos localizados principalmente no sul do país, em Sines e no Alentejo. A investigação focava na atribuição de contratos e apoios financeiros públicos vinculados a esses projetos, verificando se os procedimentos de licitação foram seguidos de forma regular e se houve condutas irregulares na tomada de decisão.

3. Datacenter

O terceiro eixo da investigação dizia respeito à instalação de um grande datacenter em território português, associado a investimentos de empresas de tecnologia internacionais. A construção de datacenters de grande escala requer autorizações ambientais, energéticas e de uso do solo que passam por aprovação governamental. A PGR investigava se houve favorecimento ou condutas ilícitas na concessão de benefícios fiscais, autorizações de construção e acesso a recursos públicos para o projeto.

A investigação da PGR

A Procuradoria-Geral da República, chefiada pela procuradora-geral Lucília Gago, confirmou que havia um inquérito em curso que incluía o primeiro-ministro entre os arguidos. Segundo divulgado pela PGR, a investigação envolvia os crimes de corrupção, tráfico de influências e participação económica ilegal. A existência de escutas telefônicas autorizadas pela justiça e a menção nominal de António Costa no processo levaram à deflagração da crise. O Ministério Público português esclareceu que a investigação não se limitava a uma pessoa e abrangia um amplo leque de suspeitas.

A renúncia de António Costa

Diante da revelação da investigação, António Costa compareceu perante o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e apresentou a sua renúncia ao cargo de primeiro-ministro. Em discurso público, Costa afirmou que, embora não tivesse cometido nenhum ato ilícito, a dignidade do cargo e o funcionamento institucional exigiam que se afastasse. O presidente aceitou a renúncia e convocou novas eleições legislativas para o dia 10 de março de 2024, que foram antecipadas do calendarizado para 2026.

Impacto político e eleitoral

A renúncia de Costa provocou um terremoto na política portuguesa. O Partido Socialista, que contava com maioria absoluta no Parlamento, viu-se sem liderança para enfrentar as eleições antecipadas. A crise abriu espaço para uma renovação da classe política e para debates aprofundados sobre transparência, conflito de interesses e governança de grandes projetos estratégicos. As eleições de março de 2024 resultaram na vitória do centro-direita, marcando o fim de nove anos de governação socialista.

Lições para a governança

O caso português ilustra os riscos inerentes à gestão de projetos de grande porte com impacto ambiental, econômico e geopolítico. A extração de lítio, a produção de hidrogênio verde e a instalação de datacenters são setores estratégicos para a competitividade de qualquer país, mas a sua implementação exige transparência absoluta nos processos decisórios. A investigação da PGR de Portugal reforçou a importância da independência do Ministério Público e da separação de poderes em democracias europeias.

Relevância para o Brasil

O Brasil compartilha com Portugal desafios semelhantes na exploração de recursos naturais estratégicos. O país possui uma das maiores reserva de lítio do mundo, concentrada principalmente no estado do Amazonas e em Minas Gerais, e vem investindo em programas de hidrogênio verde e infraestrutura digital. A experiência portuguesa serve como referência sobre a necessidade de marcos regulatórios transparentes e da participação social nos processos de licenciamento de projetos com impacto ambiental significativo.

Leia mais notícias sobre política internacional e economia em Mundo e Brasil.