Qual parte do grão de trigo se torna farinha? Conheça o 'perrengue' que o cereal passa até virar seu pãozinho com manteiga

O trigo é um dos cereais mais consumidos no mundo e a base da alimentação de milhões de brasileiros. Mas você já parou para pensar qual parte do grão de trigo se torna farinha e qual é todo o processo que o cereal precisa passar antes de chegar ao seu pãozinho com manteiga da manhã? A resposta envolve ciência, tecnologia e um verdadeiro "perrengue" que pouca gente conhece.

Estrutura do grão de trigo

Para entender qual parte do grão vira farinha, é preciso conhecer a anatomia do cereal. O grão de trigo é composto por três camadas principais:

  • Farelo (casca externa ou pericarpo): é a camada mais externa, rica em fibras, vitaminas do complexo B e minerais. É removida na majority das farinhas brancas refinadas, mas mantida nas farinhas integrais.
  • Gérmen (embrião): é a parte viva do grão, que daria origem a uma nova planta. Rico em proteínas, gorduras boas, vitaminas E e minerais. Na farinha refinada, o gérmen também é retirado porque suas gorduras podem reduzir a vida útil do produto.
  • Endosperma: é o "miolo" do grão, que ocupa cerca de 80% de sua massa total. É composto principalmente por amido e proteínas (glúten). É justamente o endosperma que se torna a farinha de trigo branca que usamos no dia a dia.

Portanto, quando compramos uma farinha de trigo refinada, estamos consumindo essencialmente o endosperma do grão — a parte rica em amido e glúten que confere textura e elasticidade à massa do pão.

O perrengue do cereal até virar farinha

O caminho do grão de trigo até a embalagem de farinha na prateleira do mercado é longo e envolve várias etapas que constituem o que o setor chama de "perrengue" do cereal:

1. Colheita e recebimento

Após o plantio (que ocorre entre abril e julho na região Sul do Brasil), o trigo leva cerca de 120 dias para atingir o ponto de colheita. Nessa fase, o grão precisa estar com teor de umidade adequado (entre 10% e 13%) para evitar mofo e deterioração. No recebimento na usina, o cereal é inspecionado para garantir qualidade.

2. Limpeza e classificação

O trigo chega à usina misturado com impurezas — pedras, palha, sementes de outras plantas, insetos. Todo esse material é removido em máquinas de peneiragem, aspiração e separação por densidade. É aqui que começa o verdadeiro trabalho de transformação.

3. Temperagem e condicionamento

Antes da moagem, o trigo precisa ser "condicionado": ele é umedecido lentamente ao longo de várias horas (processo chamado temperagem). Isso amolece o farelo, facilitando sua separação do endosperma. Se o grão estiver seco demais, o farelo se quebra em pedacinhos e contamina a farinha. Se estiver úmido demais, a massa gruda. Encontrar o ponto ideal é um desafio técnico constante.

4. Moagem e sifração

Nessa etapa, o grão passa por cilindros de aço que tritura e separa as partes. Através de um sistema complexo de sifração (peneiras vibram e separam partículas por tamanho), o farelo e o gérmen são separados do endosperma. O endosperma vai sendo progressivamente reduzido a pó fino — a farinha.

5. Enriquecimento e acondicionamento

No Brasil, a legislação exige que a farinha de trigo refinada seja enriquecida com ferro, ácido fólico, tiamina, riboflavina e niacina — vitaminas e minerais que foram perdidos na remoção do farelo e do gérmen. Após o enriquecimento, a farinha é embalada e segue para distribuição.

Farinha integral versus refinada

A grande diferença entre farinha integral e refinada está justamente em quais partes do grão são mantidas. A farinha integral conserva o farelo, o gérmen e o endosperma, oferecendo mais fibras, vitaminas e minerais. A farinha refinada contém apenas o endosperma — é mais macia e tem prazo de validade maior, mas perde parte do valor nutricional.

Independentemente da escolha, o pãozinho com manteiga que cheira tão bem de manhã cedo é resultado de um processo industrial que transforma um simples grão no alimento que está na mesa de milhões de brasileiros todos os dias.