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Justiça do Chile condena quatro soldados que, em 1986, queimaram dois jovens vivos

A Justiça chilena condenou quatro ex-soldados pelo ataque incendiário que, em julho de 1986, vitimou dois jovens durante a ditadura do general Augusto Pinochet. O caso, considerado um dos episódios mais brutais da repressão política no Chile, marcou a opinião pública latino-americana e se tornou símbolo da luta pelos direitos humanos na região.

O que aconteceu

Na madrugada de 2 de julho de 1986, na comuna de Lo Espejo, em Santiago, Rodrigo Rojas de Negri, estudante de fotografia de 19 anos que vivia no exílio, e Carmen Gloria Quintana, jovem de 18 anos, foram abordados por militares em um posto de controle improvisado. Os soldados os conduziram a um terreno vago, onde foram agredidos, espancados e, por fim, incendiados com gasolina.

Rodrigo Rojas veio a falecer quatro dias depois, em 6 de julho, em decorrência das queimaduras que cobriam quase a totalidade de seu corpo. Carmen Gloria Quintana sobreviveu, porém sofreu queimaduras em mais de 60% de sua superfície corporal, ficando com cicatrizes permanentes e sequelas que a acompanham até hoje.

O julgamento

O caso levou décadas para chegar a uma sentença definitiva. Em 1995, quatro militares — os ex-soldados Pedro Fernández Dittus, Patricio Mena, Carlos Acuña e Rafael Valdebenito — foram condenados pela Corte de Apelações de Santiago a penas de 10 anos de prisão, mas a decisão foi posteriormente anulada por questões técnicas e jurídicas em instâncias superiores.

Em 2016, a Corte Suprema do Chile reabriu o caso e, após novo julgamento, confirmou a condenação dos quatro réus, condenando-os a penas de 8 anos e um dia de prisão efetiva como coautores do homicídio de Rodrigo Rojas e das lesões graves de Carmen Gloria Quintana. A decisão representou um marco na busca por justiça, mais de três décadas depois dos fatos.

Contexto histórico

O ataque ocorreu em meio a um período de intensa repressão política no Chile sob o regime militar de Pinochet, que durou de 1973 a 1990. Organismos de direitos humanos documentaram milhares de casos de torturas, desaparecimentos forçados e execuções extrajudiciais durante esse período. O caso Rojas-Quintana ganhou repercussão internacional e contribuiu para ampliar a pressão sobre o regime chileno.

No momento do ataque, o Chile vivia uma fase de resistência armada e civil contra a ditadura. Grupos de oposição, incluindo o Frente Patriótico Manuel Rodríguez, haviam realizados atentados contra Pinochet nos meses anteriores, o que resultou em uma escalada da repressão militar nas periferias de Santiago.

Relevância e legado

A condenação dos quatro soldados é vista como um passo significativo na busca por reparação e justiça para as vítimas da ditadura chilena. O caso reforça a importância da memória histórica e do enfrentamento judicial de crimes contra a humanidade, independentemente do tempo transcorrido desde os fatos.

Carmen Gloria Quintana, que sobreviveu ao ataque, tornou-se uma referência na luta pelos direitos humanos no Chile, participando ativamente de comemorações e mobilizações em memória das vítimas do regime militar.