Katalin Novák, a primeira mulher a ocupar a presidência da Hungria, renunciou ao cargo no sábado, 10 de fevereiro de 2024, após semanas de pressão pública provocadas por um escândalo envolvendo um indulto presidencial. A decisão marcou o fim abrupto de um mandato que havia começado em março de 2022.
O escândalo
Tudo começou quando se tornou público que Novák havia concedido um indulto presidencial a Endre K., ex-vice-diretor de um lar de crianças estatal na cidade de Bicske, a cerca de 40 quilômetros de Budapeste. Endre K. havia sido condenado por cumplicidade em abuso sexual de menores — ele ajudou a encobrir os abusos cometidos pelo diretor da instituição contra os internos sob sua custódia.
O indulto foi emitido em abril de 2023, durante uma visita do Papa Francisco à Hungria, mas só veio a conhecimento do público em janeiro de 2024, quando um tribunal divulgou os detalhes do caso. A revelação desencadeou uma onda de indignação em todo o país e levantou questionamentos sérios sobre a transparência das decisões presidenciais.
Reações e protestos
Nos dias seguintes à revelação, milhares de pessoas saíram às ruas de Budapeste em protestos pacíficos, exigindo a renúncia da presidente. Foram as maiores manifestações registradas na Hungria nos últimos anos, com participantes de diversas idades e origens socioeconômicas. Os manifestantes criticaram não apenas o indulto em si, mas também o fato de que a decisão havia sido mantida em sigilo por meses.
Além de Novák, o escândalo atingiu Judit Varga, ex-ministra da Justiça, que havia contrassinado o indulto. Varga renunciou ao cargo de deputada europeia e se afastou da vida política húngara, enfrentando críticas de oposição e de parte da própria base aliada.
Consequências políticas
Katalin Novák foi eleita em março de 2022 como a primeira presidente da Hungria, com o apoio do primeiro-ministro Viktor Orbán e do partido Fidesz, que domina a política húngara desde 2010. Sua renúncia representou um raro revés para o governo, que raramente enfrenta pressão pública significativa.
O caso reacendeu debates sobre limites do poder presidencial de indulto na Hungria e sobre a necessidade de maior transparência nas instituições públicas. Analistas políticos apontaram que o escândalo enfraqueceu temporariamente a imagem do Fidesz, embora o partido tenha rapidamente articulado a sucessão.
Em 26 de fevereiro de 2024, o parlamento húngaro elegeu Tamás Sulyok, presidente do Tribunal Constitucional, como novo presidente da Hungria. A transição ocorreu de forma ordenada, mas o episódio ficou marcado como um dos momentos mais turbulentos da política húngara recente.
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