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'Não olhe nos olhos deles': como foi minha visita à megaprisão de Bukele, símbolo da guerra contra facções em El Salvador

Megaprisão CECOT em El Salvador, símbolo da política de segurança do presidente Nayib Bukele contra as facções criminosas

Quando recebi o convite para visitar o Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT), a megaprisão construída pelo governo de Nayib Bukele na cidade de Tecoluca, em El Salvador, sabia que seria uma experiência marcante. O que não imaginava era a dimensão do que veria — e o peso simbólico que aquela construção carrega. Instruído repetidamente a "não olhar nos olhos" dos detentos, senti na carne a tensão entre segurança absoluta e direitos humanos que define o debate sobre a política de Bukele.

Desde o início de 2022, quando o governo declarou o estado de exceção em resposta a uma onda de homicídios atribuídos às facções MS-13 e Barrio 18, mais de 75 mil pessoas foram presas em El Salvador. A megaprisão CECOT, inaugurada em janeiro de 2023, tornou-se o ícone visual dessa ofensiva: um complexo com capacidade para até 40 mil detentos, projetado para confinar os membros mais perigosos das gangues que dominaram partes do país por décadas.

A chegada ao CECOT: segurança em cada detalhe

O acesso ao CECOT é uma operação logística rigorosa. Localizada a cerca de 80 quilômetros da capital San Salvador, a prisão fica em uma área rural isolada, cercada por múltiplos cordões de segurança. Antes mesmo de chegar ao portão principal, fomos submetidos a revistas minuciosas: celulares, câmeras, qualquer dispositivo eletrônico foram confiscados. Cada visitante receives um colete laranja identificável e é designado um guia militar.

A infraestrutura impressiona pela escala. O complexo ocupa uma área equivalente a vários estádios de futebol. Torres de vigilância se erguem a cada poucos metros, e a cerca elétrica se estende por quilômetros. Cada cela abriga até 100 detentos, sem colchão, apenas uma plataforma de concreto. Banheiros são coletivos e expostos. A lógica é clara: privação máxima como ferramenta de controle.

"Não olhe nos olhos deles": a regra mais importante

A instrução que mais se repetiu durante a visita foi simples e direta: "Não olhe nos olhos deles". Os guias militares explicaram que contato visual direto com os detentos pode ser interpretado como provocação ou desafio, especialmente com membros de alto escalão das facções. A regra não era apenas para os visitantes — os próprios agentes de segurança mantinham um profissionalismo distante, evitando qualquer interação que não fosse estritamente necessária.

Enquanto caminhávamos pelos corredores, vi dezenas de homens trajados apenas com shorts brancos, sentados em filas no chão de concreto. Alguns tinham tatuagens cobrindo todo o rosto e o corpo — marcas registradas do MS-13 e do Barrio 18. Ninguém falou. Ninguém se moveu para nos cumprimentar. O silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo eco dos passos dos soldados e pelo rangido das grades.

A política de Bukele: popularidade e controvérsia

Nayib Bukele, eleito em 2019 com a promessa de "mão dura" contra as gangues, transformou a segurança pública na sua bandeira central. Seu governo argumenta que o estado de exceção e a construção do CECOT foram responsáveis por reduzir drasticamente a taxa de homicídios em El Salvador. Segundo dados oficiais, o país passou de mais de 1.100 homicídios por 100 mil habitantes em 2015 para menos de 3 por 100 mil em 2023 — uma queda que o governo atribui integralmente à sua política de encarceramento em massa.

A popularidade de Bukele nas pesquisas reflete esse sentimento. Com aprovações acima de 90%, ele se consolidou como um dos líderes mais populares das Américas. Em janeiro de 2024, foi reeleito para um segundo mandato com margem esmagadora, apesar de questões constitucionais sobre a reeleição. Seus apontadores defendem que a segurança é a prioridade e que os direitos dos criminosos não podem se sobrepor ao direito da população de viver sem medo.

O outro lado: denúncias de organizações de direitos humanos

Organizações como a Anistia Internacional, a Human Rights Watch e a Procuradoria para os Direitos Humanos de El Salvador documentaram centenas de denúncias contra a política de encarceramento em massa. Entre as principais alegações estão:

  • Detenções arbitrárias: milhares de pessoas presas sem mandado judicial, muitas sem qualquer conexão com facções criminosas. Membros de gangues, sim, mas também vendedores ambulantes, jovens de comunidades pobres e pessoas presas por erros de identificação.
  • Condições desumanas de detenção: superlotação extrema, ausência de colchões, alimentação precária, acesso limitado a saúde e visitas familiares praticamente proibidas durante meses.
  • Devido processo legal: denúncias de julgamentos coletivos, sem defesa adequada, e detentos mantidos presos por anos sem condenação formal.
  • Mortes em custódia: registros de ao menos 180 mortes sob custódia desde o início do estado de exceção, atribuídas a condições insalubres, falta de atendimento médico e violência entre detentos.

A Defensoria Pública de El Salvador estima que cerca de 20% dos presos durante o estado de exceção não possuíam antecedentes criminais ou conexões comprovadas com organizações criminosas. Para as famílias dessas pessoas, a megaprisão de Bukele não é um símbolo de segurança — é um símbolo de injustiça.

A vida dentro do CECOT: relatos de ex-detentos

Apesar das restrições de acesso, alguns relatos conseguiram escapar. Ex-detentos que passaram pelo CECOT descreveram um regime de confinamento que vai além da privação de liberdade. Um dos relatos mais impactantes, divulgado por uma ONG centro-americana, descreve dias inteiros confinados em celas sem ventilação adequada, temperaturas que ultrapassam os 40 graus, e a impossibilidade de ter contato com advogados ou familiares por meses.

"Não era uma prisão. Era um lugar projetado para esquecer que você é humano. Quando olham para você, é como se você não existisse. E quando você olha para eles — para os guardas — eles lembram que você existe apenas para ser punido."

Um ex-detento que preferiu o anonimato relatou que os detentos do CECOT são classificados em categorias de acordo com seu suposto nível de perigo. Os classificados como "altos valores" ficam em celas especiais com ainda menos acesso ao exterior. A comunicação entre detentos de diferentes categorias é estritamente proibida.

O CECOT como símbolo: segurança versus direitos

A megaprisão de Bukele se tornou um fenômeno que transcende as fronteiras de El Salvador. Países como Honduras, Guatemala e até nações africanas e asiáticas estudam o modelo como referência para combater organizações criminosas. Ao mesmo tempo, o CECOT alimenta um debate global sobre os limites do Estado de direito em sociedades ameaçadas por violência extrema.

Para seus defensores, a prisão é uma resposta necessária a décadas de impunidade, quando as facções controlavam territórios inteiros, recrutavam crianças e assassinavam quem se opusesse. Para seus críticos, o encarceramento em massa sem devido processo cria uma geração de vítimas e estabelece um precedente perigoso para democracias frágeis.

O que não se pode negar é que o CECOT mudou a conversa sobre segurança pública na América Latina. A ideia de que é possível "limpar" um país prendendo em massa chocou de frente com narrativas tradicionais sobre prevenção, reinserção social e combate às causas estruturais da violência.

O que vem a seguir para El Salvador

Com a reeleição de Bukele, espera-se que a política de encarceramento em massa continue e possivelmente se expanda. O governo já anunciou planos para construir prisões adicionais e intensificar operações contra redes de tráfico de drogas. A comunidade internacional, por sua vez, mantém pressão para que se investiguem as denúncias de violações de direitos humanos.

O futuro do CECOT e da política de Bukele dependerá de como El Salvador equilibra duas demandas legítimas: o direito dos cidadãos à segurança e o direito dos detentos à dignidade e ao devido processo. Enquanto esse equilíbrio não for encontrado, a megaprisão continuará sendo o que é hoje — o símbolo mais poderoso e mais controverso da guerra contra as facções nas Américas.

Perguntas frequentes sobre a megaprisão de Bukele

O Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT) é a megaprisão construída pelo governo de Nayib Bukele em Tecoluca, El Salvador, inaugurada em janeiro de 2023. Com capacidade para até 40 mil detentos, foi projetada para confinar membros das facções criminosas MS-13 e Barrio 18. O complexo ocupa uma área vasta e cuenta com múltiplos cordões de segurança, torres de vigilância e infraestrutura para detenção em massa.

Desde o início do estado de exceção em março de 2022, mais de 75 mil pessoas foram detidas em El Salvador. O governo classifica grande parte delas como membros ou colaboradores de facções criminosas, mas organizações de direitos humanos estimam que uma parcela significativa — possivelmente 20% ou mais — não possuía antecedentes ou conexões comprovadas com organizações criminosas.

O governo de Bukele rejeita sistematicamente as denúncias de organizações internacionais, argumentando que a política de segurança salvou milhares de vidas. Bukele afirma que as prisões são legais e necessárias para proteger a população civil. Sua popularidade — acima de 90% nas pesquisas — reflete o apoiomajoritário da população salvadorenha à política de "mão dura" contra as facções.

Sim. Países como Honduras e Guatemala, que enfrentam desafios semelhantes com gangues, estudam o modelo de El Salvador. Nações africanas e asiáticas também demonstraram interesse. No entanto, especialistas alertam que o modelo de encarceramento em massa pode não ser sustentável a longo prazo sem investimentos simultâneos em prevenção, educação e combate às causas estruturais da violência.

Sim, embora com grandes dificuldades de acesso. Organizações como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch compilaram relatos de ex-detentos e familiares que descrevem superlotação, ausência de colchões, alimentação precária, temperaturas extremas e acesso muito limitado a advogados e visitas familiares. O governo de El Salvador restringe fortemente o acesso de jornalistas e observadores independentes ao complexo.